Editoria Comunidade Editoria Sustentabilidade Editoria Intervenções Urbanas Editoria Cibercidade Editoria Cidade 24h Início Facebook Twitter Youtube Sound Clound Flickr Google+ Image Map
Mostrando postagens com marcador Imigração. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Imigração. Mostrar todas as postagens

30 de abr. de 2012

Que papel damos às mulheres árabes?

Em análise ao lugar da mulher árabe na sociedade brasileira, como podemos enxergá-las
livre dos estigmas ocidentais? 


Aline Sant Ana

De árabes a turcos e, por fim palestinos. A questão da Imigração dos povos árabes no Brasil é sempre um assunto que rende bastante detalhamento. Aqui em São Borja, a presença de imigrantes ou descendentes de imigrantes palestinos, libaneses e sírios, chama atenção, tornando a questão ainda mais interessante de ser tratada. Por residirem, quase que em sua totalidade, na região central da cidade, os árabes (como chamaremos nesta matéria) representam boa parte do comércio e da população urbana sãoborjense.

Não há como não identificar os componentes desta Imigração num cenário tão homogêneo, como o de uma cidade pequena. Mesmo quem anda um pouquinho desatento pelo centro de São Borja percebe a concentração de pessoas organicamente diferentes. Em trajes, aspectos físicos, nomes, línguas e rotinas distintas, os imigrantes árabes vivem uma vida comum para os padrões do lugar. Mas ainda assim, algo os destaca na realidade da fronteira.

Para a profª da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Denise Jardim, o ambiente fronteiriço é exatamente o espaço que os povos oriundos das crises territoriais do Oriente Médio , como os palestinos, procuram. A professora explica, na entrevista concedida à IHU que a busca por boas condições de vida, a reorganização familiar após a imigração e as possibilidades de “ir e vir” são fatores que impulsionam a concentração de árabes, principalmente palestinos, nas regiões de fronteira. Além disso, o fluxo comerciário e a facilidade para a obtenção de documentos que legitimem a Imigração Transnacional, favorecem a estadia destes Imigrantes nas fronteiras.

Esta condição transitória acaba por interferir na perspectiva ocidental da Imigração árabe, em que os movimentos pan-arabistas confundem-se com os segmentos sociais e culturais vividos pelos povos árabes. Por isso, quando migram para os países como o Brasil, cujos costumes culturais são muitos distintos, os árabes enfrentam alguns desvios de reconhecimento– sendo comumente taxados de turcos.

O Infoscópio preocupou-se em pesquisar por que alguns (pré) conceitos estigmatizados sobre estes Imigrantes provocam uma verdade quase absoluta no processo de reconhecimento destes povos . Assim como o texto de Renam Guerra explica a origem do chamamento “turco” para todo e qualquer árabe residente no Brasil, a repórter Aline Sant Ana mostra qual o papel da mulher no processo de Imigração, em contraponto ao conceito ocidental geralmente difundido.

Não é preciso ir muito longe para entender por que o mundo ocidental projeta uma imagem tão subversiva à mulher árabe. “Vestidas da cabeça aos pés”, mesmo em dias bem quentes, meninas e mulheres muçulmanas ainda causam indignação a algumas pessoas que circulam pelo movimentado centro comercial de São Borja. O excesso de pano incomoda aos patriatários acostumados com pernas e bustos expostos no verão brasileiro.

Se fizermos uma observação crítica às vestimentas, nem todas mulheres árabes ficam tão vestidas e nem todas brasileiras tão expostas. É uma questão de contexto. Ao propor uma análise da imagem da Mulher Árabe aqui no Brasil, aproximando a realidade de São Borja, conversamos com Simone Pires que nos conta como essas mulheres se posicionam diante da nossa sociedade.

Estudante de serviço social, concede entrevista à repórter Aline Santana
Simone, que é estudante do curso de Serviço Social da Unipampa, realizou uma pesquisa de relatos-orais sobre como ocorreu a vinda de algumas famílias para São Borja e como se dá o cotidiano dessas pessoas na cidade. Durante a pesquisa a estudante pôde acompanhar alguns momentos importantes, como a realização de um casamento numa das famílias. Simone relata que a questão do matrimônio na comunidade muçulmana é algo sagrado e, portanto, muito respeitado por estas pessoas.

A estudante aponta que muitas vezes o matrimônio pode ser a própria causa da imigração. “O casamento que testemunhei era de uma libanesa que veio para o Brasil por que a família do noivo já estava aqui”, conta. Para Simone a questão da relação de gêneros na cultura árabe, quando relacionada ao papel da mulher diante da sociedade, pode variar tanto quanto na nossa cultura. “O fato de estarem mais vestidas não significa nenhum tipo de submissão. Já conheci mulheres árabes muito liberais, assim como já conheci brasileiras submissas.”

Um bom exemplo de não-estigmatização foram os protestos das mulheres libanesas durante o as mobilizações da primavera-árabe. Enquanto as árabes, de véu e vestidos longos , lutavam pelos seus direitos nas ruas, o mundo ocidental (tão liberal) assistia o ocorrido pela mídia. O exemplo de protagonismo, neste caso, já responde qual o posicionamento da mulher árabe diante da sociedade.

Em São Borja, no entanto, o papel da mulher árabe fica mais evidente nas relações de trabalho familiar. Nas famílias cuja renda provém especificamente do comércio, as mulheres assumem uma postura à frente dos negócios.

Uma análise feita pela pesquisadora Samira Osman, publicada em artigo científico mostra que o papel da mulher árabe tratado no assunto Imigração condiz, principalmente, com a transformação de Imigração provisória, para a Imigração definitiva. No artigo, Samira defende que “ao contrário do que possa parecer à primeira vista, essas mulheres imigrantes deixaram a posição secundária de acompanhantes para exercer um papel fundamental no processo imigratório em toda sua complexidade”. A autora evidencia como o papel da mulher pode ser contextualizado a partir do processo de Imigração e, tão logo, justificado pelo processo de adaptação econômico e cultural destes povos nos países de destino.

Para entender como funciona essa diferença entre os processos de Imigração, procuramos o antropólogo Daniel Etchverry (UFRGS) , e questionamos quais as perspectivas contemporâneas para o processo imigratório nas cidades de fronteira. Confira a entrevista na íntegra:


23 de abr. de 2012

Imigração Italiana - Entrevista Perfil com Davide Carbonai

“O que eu gosto do Brasil é a transformação!”,
revela o professor que mora em São Borja há 9 meses. 


Em entrevista ao Infoscópio, Davide Carbonai, professor da Universidade Federal do Pampa, conta como foi a imigração para São Borja e opina sobre política e questões sociais que envolvem a chegada dos Italianos no Brasil.
Na conversa com a repórter Jaqueline Brendler, o italiano revela ter encontrado segurança profissional e a realização pessoal em território brasileiro. Confira a entrevista na íntegra.









O Infoscópio - Por que decidiu vir para o Brasil?

Davide - Isso é um ponto em aberto. São casos da vida, histórias pessoais. Não é somente uma escolha individual. São as histórias da vida da gente. Diria que isso é um efeito borboleta.

O Infoscópio - O Sr. acredita que exista uma imigração moderna?

Davide - Acredito que as pessoas procuram algo melhor. Brasileiros imigram para Itália, Japão... Assim como nós italianos viemos para cá, ou para outro lugar do mundo. Procurando alguma coisa? Não sei. Não consigo mais ver a situação dos imigrantes como era antes. Não sei se eles querem passar a vida toda num país que não é seu, são momentos. Querem fazer uma experiência de um mês, seis meses,um ano ou talvez uma vida. A imigração é fluida. Hoje, a globalização mudou a vida dos imigrantes, hoje se pode falar com sua mãe todos os dias. Antes não era assim. Não existem mais imigrantes como antes.

O Infoscópio - Mas qual foi a sua motivação para vir para o Brasil, especificamente?

Davide - Como te disse antes, são vários os fatores. Não é assim, estou pobre na Itália e vou ficar rico no Brasil. Essa questão de dizer que a Europa está em crise, e o Brasil em desenvolvimento, isso é uma bobagem total, porque isso é uma visão de mundo que alguém criou. A pessoa que imigra hoje, não fica fazendo análises do tipo: o Produto Interno Bruto do Brasil (PIB) cresce 3% ao ano e na Itália não. Ninguém fica fazendo estes cálculos.

Eu vim para o Brasil por motivos pessoais, pois eu poderia estar em qualquer lugar do mundo. A minha meta era a estabilidade, um emprego fixo, não coisas temporárias como eu tinha antes. Isso era meu plano de vida.

O Infoscópio - Como era a vida na Itália?

Davide - Ah, minha vida na Itália...(fica pensativo por instantes). Lá eu me formei, em Florença, na Laurea Magistrale que junta graduação e mestrado. Isso foi antes da reforma universitária em 2000. Depois disso participei de algumas seleções de emprego, algumas fui bem, outras não. Eu ganhei um prêmio de melhor pesquisador jovem da Itália, em 2006, por uma das melhores revistas de lá, chamada Polis. O prêmio se chama Giovani Ricercatori.

O Infoscópio - Qual é sua relação com a política?

Davide - Fui vereador durante dez anos na Itália. Comecei exercer esse cargo aos 24 anos, depois fui reeleito. Isso no município de San Giovani Valdarno, na província de Arezzo.

O Infoscópio - Ser vereador na Itália é diferente do que ser aqui no Brasil?

Davide - Sim, claro. Na Itália a eleição é bem participativa e, além disso, é bem difícil acessar a câmara dos vereadores, que lá se chama Concilio.Tem que entrar primeiro numa lista. Lá o vereador não ganha quase nada, e existe bastante prefeituras,são 8.105.

 O Infoscópio - Como vereador, qual projeto considera que fizeste melhor?

Davide - Naquela época, a Itália estava começando a entrar em crise. No início dos anos 90, já começou a ter cortes nos repasses dos municípios e aumentou nos anos 2000.
Na minha opinião não é o vereador sozinho que faz alguma coisa e sim a Câmara. O vereador não existe fora desse contexto. Naquela época, a Câmara realizou bons projetos para amenizar a situação agravante que já estava no país.

O Infoscópio - Os conhecimentos de cientista político te ajudaram para realizar seus mandatos como vereador?

Davide - Sim, claro que me ajudou. Mas são coisas diferentes.

O Infoscópio - Como o Sr. vê a política são-borjense?

Davide - É muito difícil analisar, pois lá na Itália a política estava numa profunda crise. Não são tempos bons para ninguém. Hoje, existe uma forte fragmentação nos partidos e isso não tem sentido nenhum. Mas aqui tem coisas diferentes sim.

O Infoscópio - O que, por exemplo?

Davide - Não é que seja uma parte boa e uma parte ruim. Vejo que a população não se envolve. São questões de participar do município. Aqui não tem muitas associações, cooperativas.
O povo é muito mais participativo lá e isso influencia em algumas coisas. Por exemplo, eu posso andar com segurança à noite em Toscana, deixar a casa aberta, a chave do carro e não acontece nada.
Na Itália, o espaço público é maior, seja em termos físicos, como parques e praças, como também sociais. Se tu moras na mesma cidade, tu pertences ao mesmo espaço.
Em São Borja são mundos diferentes e isso é reflexo da política. A diversidade explica um pouco isso.

O Infoscópio – Como foi recebido em São Borja?

Davide - Eu fui muito bem recebido. Gostei da recepção. Para mim foi uma ótima experiência. Mas não é assim para todo mundo.

O Infoscópio – Qual é a maior diferença entre São Borja e a Toscana?

Davide - A questão da segurança. Na Toscana ninguém precisa ter um contrato com a ROTA (empresa de vigilância em São Borja). Isso tem um efeito social enorme. Isso chega às pessoas, destrói o espaço público.
O fato de teres um jardim atrás da casa, significa ter menos espaço no público. Eu nunca tive um jardim privado na Itália, mas fazia parte de associações. Lá ninguém loca DVD para assistir em casa se tem ambientes para fazer isso. Tudo é público.

O Infoscópio – Retomando o assunto da Imigração, os brasileiros têm uma visão distorcida dos italianos?

Davide -  Digamos que sim. Pois a imagem que pode ter ficado é do italiano egoísta, fechado. Tudo são as circunstâncias. No século XIX eles passaram fome, viveram numa escravidão. Lutavam contra o mundo e contra todos. Isso cria uma pessoa fechada. O italiano pensa muito na família, tem uma visão “familiarista”. Eu penso assim! É a minha família e deu, o restante eu não me importo. Hoje em dia, as pessoas não se ajudam tanto como antes. A diferença dos imigrantes daquela época é que eles estavam desesperados e a primeira razão era a pobreza. Famílias que vinham para cá mandavam cartas dizendo: vem para cá, que aqui tu não tem dono! A primeira e a segunda grande Guerra também impulsionaram a imigração.

O Infoscópio – Pensa em trabalhar na política aqui em São Borja?

Davide - Não especificamente. Eu faço política todos os dias sendo professor, mas política partidária eu não quero. Gosto muito de participar de debates, pois em qualquer debate que discuta o sistema social brasileiro ou de qualquer outro país, se está fazendo política.

O Infoscópio - O que mais lhe agrada aqui no Brasil?

Davide - O que eu gosto do Brasil é a transformação. Eu sou um sociólogo, portanto, ver uma sociedade em transformação é interessante. Além de ser um lugar muito agradável. Eu tenho três vidas: uma aqui em São Borja; outra em Porto Alegre, onde minha esposa vive; e outra na Itália, onde estão minhas raízes. Só tem uma coisa ruim nisso tudo: viajar de uma a duas vezes ao mês. Eu estou envelhecendo. Isso não é bom para mim ! (risos).
                                                              
Para contextualizar os marcos da Imigração Italiana no Brasil, você poderá acompanhar o resgate histórico deste período até os dias atuais, ouvindo o podcast “Imigração Italiana no Brasil – História”.

A lojinha dos turcos

Por que os Árabes, de forma geral, são tão comumente chamados de "Turcos", no Brasil?



 
Renan Guerra

“Turco” virou sinônimo de árabe, especialmente do comércio dos árabes, tão comum em inúmeras cidades do país. A famosa “lojinha dos turcos”. Andem pelas ruas de São Borja onde se encontram árabes ou descendentes e ouçam constantemente a denominação “turcos” para todo e qualquer árabe.

Na minha cidade, Santiago, curiosamente não encontramos descendentes de árabes, mas toda e qualquer lojinha que vende quinquilharias é chamada de “loja dos turcos”. Dia desses, minha mãe disse:

- Vamos passar ali na lojinha das turcas.

Quando eu entro na loja me deparo com duas mulheres com longos cabelos e saias jeans, que aparentavam pertencer a uma das inúmeras igrejas neopentecostais existentes atualmente, nada haver com turcas. Antes de desvendarmos as raízes dessa confusão, é importante deixar claro que árabe é o cidadão que fala árabe ou vem de países pertencentes à Liga Árabe ou ainda tem a ascendência dos habitantes originais da península arábica . Pontuo ainda que chamar os árabes de muçulmanos é outro erro, já que o muçulmano é apenas a pessoa que adere ao Islã, já a população árabe é formada por judeus, cristãos e muçulmanos. Enfim, nem todo árabe é muçulmano e nem todo árabe é turco.

A confusão territorial, cultural e linguística que acontece no Brasil se dá pela história das migrações destes povos. Sempre palco de inúmeras disputas territoriais, o Oriente Médio era em grande parte comandado pelo Império Otomano, formado por turcos otomanos, até 1923, quando é criada da República da Turquia. Sendo assim, até essa data os povos que migravam acabavam saindo com documentação otomana, isto é, turca, fazendo com que todos os imigrantes da região, mesmo sendo libaneses, sírios, entre outros, fossem chamados de turcos.

Curiosamente já se passaram quase cem anos e as confusões permanecem, tanto no âmbito comunicacional brasileiro quanto nas divisões territoriais do Oriente Médio. A história dos turcos (e aqui me refiro apenas ao povo turco e não a todos os árabes) é riquíssima, cheia de disputas de poder e territórios. Essas ainda permanecem no Oriente Médio atual, justificando o fato de muitos países não estarem satisfeitos com suas extensões - como o exemplo das infinitas disputas por territórios curdos na Turquia. Mesmo com tanta confusão, atualmente a Turquia é um dos estados mais modernos da região (tentem considerar a minha visão ocidentalizada no uso da palavra moderno) e tem uma separação bem definida entre estado e religião.

No Brasil, a maioria dos nossos imigrantes do Oriente Médio são libaneses e sírios, por causa dessas confusões linguísticas, que apenas geraram um preconceito secular, acabamos por não conhecer todas essas culturas diferentes. Ainda enxergamos o “turco” da lojinha com olhares estranhos e depois da campanha norte-americana para vilificar o povo árabe então, as barreiras culturais só aumentaram. Ainda consideramos, com nosso olhar ocidental, tudo ultrapassado, sem considerar que nem todo árabe é muçulmano, que nem todo muçulmano é xiita, que nem toda mulher árabe sofre, que nem todo homem árabe é um ogro.

Um fato historicamente curioso acabou nos relegando um distanciamento cultural que deve ser quebrado, devemos conhecer mais essas culturas diferentes e conviver harmoniosamente. Há uma produção interessantíssima que vem do Oriente Médio, desde literária até cinematográfica, passando claro pela vibrante música pop da região. Tento aqui apenas clarear nossa visão e tornar a nomenclatura “turcos” apenas aos verdadeiros turcos e que toda essa confusão torne-se risível diante das forças culturais que surgem dessa convivência. 

22 de abr. de 2012

De Ain Arab à São Borja

Estevan Minini
Liziane Wolfart
Roberto Ferreira


Imagine você atravessar o mundo aos 19 anos, com 30 dólares no bolso, em busca de oportunidades em terras distantes. Esse é o ponto de partida para contarmos a história de Mohamad Ibrahim El Masri, imigrante libanês que aportou no Brasil em 1958 e fixou residência na cidade de São Borja.

Com a informação de que Mohamad era um dos imigrantes mais antigos residentes no município, fomos até a Casa dos Tecidos, loja de sua propriedade, localizada no centro da cidade, para conhecer a sua história. Lá chegando, fomos recebidos gentilmente por Ibrahim Mohamad El Masri, seu filho. Explicado o motivo da visita, procuramos agendar um horário para a entrevista.

O jovem Ibrahim então nos informou do recente falecimento do comerciante, decorrente de uma crise de insuficiência respiratória. Ibrahim, bastante emocionado, passou a nos relatar a trajetória de seu pai em terras brasileiras.

A trajetória

Mohamad veio do Líbano para prosperar em São Borja,
seu filho Ibrahim deseja fazer o caminho inverso 

Mohamad Ibrahim El Masri deixou sua cidade natal Ain Arab, no Líbano, aos 19 anos com a intenção de morar no Brasil. Lá o jovem trabalhava com a família na criação de ovelhas e cultivo de azeitona e uva. “Meu pai veio se aventurar no Brasil, ele queria trabalhar, não sabia ainda no que, mas queria muito vir para o Brasil”, contou seu filho.

Com apenas 30 dólares no bolso Mohamad embarcou no navio espanhol Cabo San Roque e, após uma viagem de 30 dias, desembarcou no Rio de Janeiro.

Sem entender uma palavra em português foi aconselhado por um conterrâneo que conheceu no desembarque: “Todos desembarcaram e foram recebidos por seus familiares. Meu pai ficou sozinho. Por sorte ou destino encontrou um libanês, dono de uma grande fábrica de peças, que lhe explicou como era a vida no Brasil, lhe sugeriu que fosse para uma cidade menor e indicou Porto Alegre”, relatou Ibrahim.

Ele ficou cerca de três meses ganhando a vida vendendo frutas. “Em Porto Alegre falavam muito que São Borja era uma boa cidade, tinha a fama de ser a Terra dos Presidentes e meu pai decidiu que viria para cá”, esclareceu Ibrahim.

Mohamad então veio para São Borja, onde iniciou o trabalho de mascate, vendendo confecções de porta em porta, inclusive no interior do município. Neste ofício o imigrante atuou por 15 anos. “Meu pai chegou a ser chamado de louco, pois muitas vezes, entre uma visita e outra, dormia no campo, com temperaturas que chegavam a menos três graus”, revelou seu filho.

Comércio da família El Masri em esquina do centro da cidade 

O legado

Após 15 anos vendendo suas mercadorias de porta em porta, Mohamad abriu uma loja de confecções, onde hoje se encontra o Banco do Brasil. Após alguns anos mudou-se para a esquina das ruas Presidente Vargas e General Marques, atual endereço da loja da família.

Ibrahim conta que o pai nunca teve a oportunidade de voltar ao Líbano, porém em 2005 e 2010 recebeu a visita de um dos seus três irmãos, que atualmente reside no Canadá. O descendente libanês revela que tem vontade de viver no país onde seu pai nasceu.

“Se Deus quiser, um dia irei morar lá. É o meu sonho. Quero fazer ao contrário. Meu pai morreu aqui e eu gostaria de morrer lá”, revelou Ibrahim que ainda lembrou um conselho do pai: “sente perto de quem te faz chorar e não de quem te faz sorrir. Aquele que te faz chorar no início é aquele que te aconselha para o bem, mais tarde, aquele que sempre te fez sorrir, pode te fazer chorar”.

Confira no vídeo abaixo a entrevista com Guaraci Pletsch, presidente da Associação Comercial e Industrial de São Borja, que analisa a importância da presença árabe no comércio local: