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1 de dez. de 2012

O destino do lixo em São Borja

Pâmela Faustino
Rafael Junckes
Tamara Finardi

O lixo que colocamos nas lixeiras de nossas casas parece ter pouco valor. Você concorda? Ele é o resultado do consumo diário de muitos produtos em um ciclo comum: comprar, consumir e descartar. Quem pensa assim, ao menos uma vez ao ano, quando recebe a cobrança da taxa de lixo, toma certa consciência da importância do descarte adequado e de que o final desse processo não está na lixeira de casa. A taxa, no entanto, não oferece a noção geral do montante gasto com estes resíduos, tampouco do impacto de nosso consumo no meio ambiente. Em São Borja, atualmente, são destinados mais de R$ 2 milhões por ano para a coleta de resíduos sólidos e orgânicos. Este gasto já foi superado em anos anteriores, chegando a mais de R$ 4 milhões/ano.

No infográfico, entenda o cálculo da taxa anual de lixo em São Borja.

[Acessibilidade] clique aqui para acessar o conteúdo do infográfico em texto.


Histórico do lixo são-borjense
No primeiro plano da foto aparece uma parte do chão, de terra vermelha,sem nenhuma cobertura de grama ou vegetação. No segundo plano um pedaço de gramado, com algumas arvores. Do lado esquerda da foto, aparece um sacos de lixos amarelos cobertos com lona preta. No terceiro plano da foto, aparece uma lavoura de  arroz
Lavouras de arroz ao lado do lixão/ 
foto: Pâmela Faustino

Por cinco décadas todo o lixo produzido pelo município era enterrado num espaço de três hectares, localizado próximo ao cemitério municipal do bairro do Passo. Neste período o lixo era apenas jogado no solo sem nenhum cuidado. “A área ainda está contaminada, se você escavar vai encontrar vários sacos de lixos”, enfatiza o secretário do Meio Ambiente, José Ênio de Jesus.

O lixão começou a gerar problemas iminentes para a cidade. Além do mau cheiro, a falta de cuidados com o depósito dos resíduos levantou grandes discussões sobre impactos ambientais como a contaminação do solo, do lençol freático e do riacho do Arroio do Padre, que passa ao lado do terreno e desemboca no Rio Uruguai.

A alternativa encontrada foi enviar os resíduos para outras cidades do Estado. De acordo com José Ênio, no início o material foi levado para Minas do Butiá, que fica a 532 km do município. Depois passou a ser enviado para Santa Maria e o último destino foi Marau, a 413 km de São Borja. O transporte gerava grande despesa aos cofres públicos, cada tonelada de lixo transportada tinha o custo de cerca de R$ 150. Logo, só com transporte o investimento era de R$ 6 mil/dia.

No entanto, desde 2011 o lixo voltou a ser deixado em São Borja. A atual empresa de coleta, a Eccolix, passou a recolher e embalar o lixo em bolsões plásticos. O material é depositado na área degradada do antigo lixão, sem entrar em contato com o solo, de acordo com o gerente da empresa, Marcelo Barcellos.



O processo de coleta de lixo em São Borja








[Acessibilidade]: ouça abaixo a audiodescrição da videorreportagem "O destino do lixo em São Borja".
  


O caminhão de recolhimento do lixo é dotado de um sistema onde os resíduos são prensados, ao final são depositados no local do antigo lixão em bolsões plásticos de quatro toneladas cada (Entenda melhor o sistema na videorreportagem). O chorume, líquido preto e expeço que sai do processo de prensa, é separado e depositado em duas piscinas de decantação. Há cinco meses o líquido passa por um tratamento de descontaminação ainda experimental, antes disso o líquido era armazenado em tonéis e transportado até Santa Maria, onde recebia o tratamento realizado por uma empresa especializada. Em São Borja o lixo é recolhido no centro da cidade seis vezes por semana e nos bairros mais distantes três vezes alternadas.

No fundo o céu está azul, sem nenhuma nuvem. O primeiro plano da foto é um caminhão, com uma prensa que serve para tornar menos os grandes sacos amarelos de lixos. No lado direito da foto, ao lado do caminhão estão dois rapazes. Um está arrumando o caminhão, ele veste uma bermuda laranja com uma listra branca e uma camiseta verde. O mesmo usa um boné colorido. Já o segundo moço, está olhando o que está arrumando o caminhão, ele veste bermuda laranja com detalhe em branco e uma camiseta laranja com um detalhe em branco. Não está usando boné.

Caminhão da coleta de resíduos sólidos e orgânicos/
Foto: Tamara Finardi
Bolsão plástico sobre a gel membrana/Foto: Pamela Faustino

Durante a visita não fomos autorizados a conhecer as piscinas de tratamento do chorume. Barcellos informou que elas ficam a céu aberto já que a água da chuva é um componente que acelera o processo de descontaminação. O risco do procedimento é o de vazamento de água, com o aumento do nível pelas chuvas.

No terreno, os bolsões são empilhados sobre uma gel membrana de 8mm (espécie de lona preta especial), com o intuito de proteger o solo da contaminação. As pilhas são parcialmente cobertas por lonas plásticas para aumentar a vida útil do material e permitir que o armazenamento seja prolongado. “Por mais que ela seja fechada, há vazamento de gás metano. Com isso a poeira pega e fica aquela aparência toda muito degradada. A lona é uma alternativa para melhorar a questão da parte sustentável da bolsa, para que ela dure um pouco mais”, explica Marcelo Barcellos, gerente da Eccolix em São Borja.
No fundo podemos ver o céu completamente azul, com algumas nuvens pequenas. No primeiro plano da foto, sacos grandes de resíduos de cor amarela. O chão de terra vermelha, aparece com bastante barro, dando a entender que fazia pouco que havia chovido. No meio, dos sacos amarelos bem a direita da foto, uma lona preta cobre alguns desses sacos.
Bolsões plásticos empilhados no lixão/
Foto: Pâmela Faustino

Segundo o secretário do Meio Ambiente do município, José Ênio de Jesus, o trabalho realizado pela Eccolix custa R$ 197,00 por tonelada de lixo recolhida. Ao fim de um ano são cerca de 2 milhões e quatrocentos mil reais despendidos para a Eccolix.

Nossa equipe foi até o local onde fica depositado o lixo no dia 21 de novembro de 2012. A visita foi monitorada e não tivemos permissão para fazer imagens de todo o lugar. Neste dia foram encontradas algumas bolsas rasgadas e outras sem a cobertura da lona plástica, pelo chão é possível ver o resultado das décadas de descarte do lixo sem qualquer tratamento, bem como resíduos que vez ou outra se desprendem dos bolsões.

Segundo Barcellos, a cobertura das pilhas de bolsões foi iniciada no início desse ano e, como tem um caráter de prolongação adicional na vida útil das bolsas, nem tudo está coberto. A chuva e o vento forte também favorecem danos aos bolsões. Assim como, as reações químicas (gás metano, chorume e outros resíduos) que acontecem no material compactado.


Consciência Seletiva

Galpão de madeira, parede dos fundos de cor branca. Foto feita na luz do dia. No chão do galpão há muitos fardos de material reciclável espalhados por todo o espaço. Esses fardos contêm materiais como papel, papelão e garrafas plásticas, tudo amarrado com cordas.
Interior da Cooperativa de Recliclagem Cooreciclar/
Foto: Pâmela Faustino

A Coleta Seletiva em São Borja, que acontece em paralelo ao trabalho da Eccolix, é realizada pela Cooperativa dos Trabalhadores de Triagem e Reciclagem de Resíduos Sólidos Urbanos São-borjense, a Cooreciclar desde dezembro de 2010. A triagem do material é feita em uma área vizinha ao depósito do lixo do município, dentro do espaço de três hectares do antigo lixão.

“A prefeitura tem um contrato de cedência com a cooperativa, cedendo um caminhão como forma de ajuda de custo, mas a manutenção e operação são por conta da cooperativa [...] esse caminhão agora não está funcionando, o usado hoje na coleta é alugado por eles, a prefeitura paga um equivalente a R$ 5,30 por quilômetro rodado, até 1.500 quilômetros por mês”, explica o secretário do Meio Ambiente. O presidente da Cooreciclar, Valdir Radiuk, declarou na visita da nossa equipe ao lixão que “desde julho, há R$ 35 mil só da cooperativa para receber da prefeitura”.

Segundo dados da Cooreciclar, em São Borja são recolhidas de 30 a 40 toneladas de material reciclável por mês. Mas no processo de coleta da cooperativa nem todo lixo recolhido levado para a triagem contém material adequado para a reciclagem. Sacolas de supermercado, papel higiênico, resíduos orgânicos e outros materiais acabam sendo recolhidos e precisam ser separados. Esse lixo é depositado nos arredores da cooperativa para que a prefeitura dê a destinação adequada.

Radiuk revela que se encontra de tudo entre o material reciclado, por volta de seis anos atrás ele encontrou “uma criança aqui [...] uma gurizinha, tava dentro de duas sacolas verdes, devia pesar uns três ou quatro quilos, toda formadinha”.







Aterro Sanitário
Segundo informações do gerente local da Eccolix, Marcelo Barcelos, os bolsões plásticos de armazenamento do lixo compactado devem ficar estocados por um período mínimo de 24 meses. O processo de estocagem em São Borja iniciou em março de 2011, então até março de 2013 os promeiros bolsões poderão ser abertos.

Passado o prazo é possível abri-los para separação de matéria orgânica (que pode ser utilizada para adubação), plástico e outros materiais que ainda podem ser reciclados e o lixo comum não reciclável. Este último poderá ser enviado ao futuro aterro sanitário que vem sendo organizado por um consórcio de administração entre os municípios de São Borja, Itaqui e Maçambara. Conforme informou a secretaria de Meio Ambiente, o local adquirido para a construção tem uma área de 50 hectares e prevê o recebimento de 80 a 100 toneladas de lixo ao dia. Na área a proposta será desenvolver também atividades relacionadas à coleta seletiva e a compostagem. Segundo José Ênio, o aterro deve entrar em funcionamento no segundo semestre de 2013, pois atualmente aguarda a liberação da licença prévia emitida pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM).

Até lá o lixo continua sendo compactado e ensacado pela Eccolix, ainda sem perspectivas de destinação dos bolsões plásticos empilhados. “A gente faz uma proposta pra prefeitura, se a prefeitura quiser contratar, contrata. O lixo é problema do município. [...] Por mais que não tenha viabilidade econômica fazer essa operação, qualquer coisa que o município fizer com o dinheiro pra proteger o meio ambiente, para não enterrar lá naquele aterro, excelente. Eu creio que nós [moradores] devemos pagar o preço por isso ai. A não ser que a gente tenha educação nas nossas residências para aprender que não devemos colocar o lixo da forma que a gente coloca fora”, esclarece Marcelo Barcellos.



Entenda a diferença entre lixão e aterro sanitário no podcast a seguir:

[Acessibilidade]clique aqui para ler o conteúdo do podcast.


* As fotos desta postagem possuem texto descritivo para softwares leitores de tela.

São Borja em 24 horas

Phillipp Gripp

A equipe d’O Infoscópio mapeou a rotina diária do município gaúcho que faz fronteira com Santo Tomé (Argentina) e mostra para você o que acontece no centro da cidade

O céu está azul e sem nuvens. O sol nasce no horizonte e começa a iluminar os prédios e as casas da cidade.
Os primeiros raios de sol em São Borja - Foto: Phillipp Gripp
06h: São Borja está escura e calma. Os caixas eletrônicos dos bancos voltam a funcionar automaticamente. O único movimento expressivo na cidade é na esquina da Rua Barão do Rio Branco com a Cândido Falcão, onde os feirantes independentes começam a agitá-la colocando os produtos coloniais em exposição. 06h18: O sol começa a se mostrar timidamente no horizonte, parecendo iluminar as casas de nossos vizinhos argentinos antes das nossas. 06h30: Alguns poucos trabalhadores chegam em padarias e mercados da cidade para organizar os estabelecimentos.

7h: Milhares de despertadores tocam simultaneamente, cada um a seu estilo, músicas que mais tarde se tornarão irritantes e serão trocadas por outras que soarão no mesmo horário, criando um ciclo interminável no decorrer dos meses. Uma grande parcela de pessoas abre os olhos de forma preguiçosa e se levantam para começar a rotina de mais um dia da semana: tomar banho, vestir-se, comer algo no café da manhã (enquanto assiste TV, acessa a internet, ouve rádio ou lê um jornal impresso), escovar os dentes, e sair para o trabalho – não sem antes dar uma última olhada na cama e pensar em como seria ótimo se pudesse continuar dormindo. 7h15: Uma das atendentes, já uniformizadas, de uma padaria abre as portas para os primeiros clientes e, sonolenta, reza para que o intervalo das doze às quatorze horas chegue logo.

Fachada do Hospital Ivan Goulart.
Fachada do Hospital Ivan Goulart - Foto: Liziane Wolfart
08h: Funcionários dos três maiores supermercados da cidade abrem as grades e deixam os clientes que esperavam ao lado de fora entrarem. Alguns caixas já estão posicionados, organizando as moedas para troco e aguardando os primeiros lucros. 08h05: Um médico estaciona seu carro em frente ao  Hospital Ivan Goulart e calmamente se dirige até seu consultório, enquanto quatro pessoas já aguardam a sua chegada. 08h10: Os pontos de ônibus estão lotados de estudantes que esperam a linha que os leva até a universidade, a qual deveria ter passado há cinco minutos e está parando ali apenas agora. Quando todos entram e o transporte prossegue seu caminho, dois adolescentes dobram a esquina correndo para pegar a condução que acabou de partir; eles percebem, param, enxugam o suor das testas e, com a respiração ofegante, andam mais devagar. 08h30: Uma após a outra as lojas de roupas do centro de São Borja iniciam o horário comercial. Um funcionário de uma delas chega correndo, com um sorriso no rosto por ter conseguido o emprego dois dias atrás, enquanto o cadeado está sendo destrancado e dá “bom dia!” ao chefe, que lhe responde, cordialmente, com a mesma exclamação.

9h15: Os chefes e cozinheiros dos restaurantes Aquarela, Al Manara e Algo Mais e de alguns hotéis começam a cortar cebolas, alhos, alfaces e tomates; a fritar, cozinhar e assar os pratos para o almoço que será servido a partir das onze e meia. 9h50: Um funcionário de um deles começa a assar carne numa chapa e deixa o suor respingar por cima do objeto, o que faz o aparelho chiar; ele olha para os lados procurando alguém e continua colocando novos cortes de aves e bovinos.

10h: Os bancos da cidade dão início ao horário de atendimento e a fila de 23 pessoas que aguardava na frente de um deles começa a se mexer. 10h02: O micro-ônibus argentino começa o primeiro trajeto do dia que faz as quatro viagens internacionais diárias (acompanhe no infográfico abaixo os horários de ônibus que saem da cidade) de São Borja a Santo Tomé e vise-versa; o motorista/cobrador argentino se diverte com as tentativas de alguns brasileiros arriscando um “portunhol” barato toda vez que lhe dão 12 pesos ou 05 reais – preço da passagem. 11h57: O comércio de São Borja se organiza para finalizar o expediente da manhã, enquanto algumas lojas já fecham as portas.

12h: Os funcionários públicos da prefeitura municipal encerram o expediente que iniciou às oito da manhã e o responsável pelo site do órgão atualiza a página com os telefones úteis do município antes de sair do Departamento de Comunicação (DECOM). 12h13: O movimento no comércio da cidade é primordial nos supermercados e restaurantes. 12h30: Um ônibus volta lotado e barulhento do bairro Ernesto Dornelles, onde pegou os alunos da Unipampa, para o centro. 12h52: Os operários de uma obra da Rua General Osório comem o almoço, entregado mais cedo numa vianda.

13h08: Alunos voltam a se amontoar nas paradas de ônibus esperando a linha – a qual passa no horário certo (treze horas e dez minutos) dessa vez – que os levarão à universidade. 13h37: Os funcionários dos restaurantes – agora vazios – se servem e se reúnem em mesas perto da cozinha para o almoço. 13h44: Uma moradora de rua, carregando um saco com latas amassadas de refrigerante, espera sentada na porta de um deles até que um garçom leva até ela um prato cheio das sobras do almoço. 14h00: As lojas do comércio central voltam a funcionar e o movimento começa a fluir.

Crianças, adultos e idosos aproveitam o fim de tarde na praça da Lagoa. No parquinho uma criança brinca dentro da caixa de areia do escorregador. Os pais da criança a olham. No lado esquerdo da imagem pessoas de todas as idades fazem uma roda de chimarrão. Um senhor de idade está sentado num banco e observa toda a cena.
Crianças brincam e adultos tomam chimarrão no parque da
 Praça da Lagoa - Foto: Liziane Wolfart
15h00: As agências bancárias encerram o horário de atendimento, mas todos permanecem trabalhando em seus computadores. O centro da cidade segue a rotina. As pessoas vêm e vão, pagam suas contas, fazem um lanche, levam as crianças para brincar numa das praças, ou simplesmente tomam chimarrão e conversam. 17h30: As escolas liberam os estudantes do turno da tarde, acarretando um leve trânsito por causa dos pais que vão buscar as crianças, além de universitários que estão voltando para o centro da cidade. 18h30: Finalmente as lojas começam a fechar e os trabalhadores a voltar para suas respectivas casas.

19h: O fluxo de clientes aumenta nas lancherias são-borjenses, que recebem os mais variados tipos pedidos, escolhidos entre diversas opções de xis, cachorros-quente, pizzas e pastéis. 20h28: O sol se despede deixando o horizonte num alaranjado forte, que vai se dissipando, dando lugar à luz da lua.
O sol se põe no horizonte e o céu vai ganhando tons alaranjados. A foto foi captada na sacada do décimo andar do prédio Sindicato rural. Uma árvore está na frente da imagem que tem como fundo o rio Uruguai.
O sol se põe em São Borja tingindo o céu de tons alaranjados - Foto: Phillipp Gripp

21h42: Um rapaz chega correndo, trazendo consigo uma mala, até o ponto de táxi. Ele deseja boa noite ao motorista, que coloca a bagagem no porta-malas e segue rumo à rodoviária. 21h58: O posto Missioneiro enche de carros e pessoas que procuram um lugar para uma noite animada (como você pode acompanhar no vídeo abaixo, que fala sobre o entretenimento da noite na cidade):

[Acessibilidade] Clique aqui para ouvir a audiodescrição do vídeo acima.

22h: Os caixas eletrônicos das agências bancárias no centro do município desligam automaticamente. Os supermercados finalizam o expediente e fecham as portas.  00h: Os restaurantes começam a fechar e os funcionários organizam o estabelecimento para o dia seguinte. 01h: O movimento de jovens aumenta em frente ao BullEstação do Som e Clube Comercial. 02h: Um caminhoneiro pede informação a um pedestre, que não sabe lhe dizer onde há um lugar aberto para comer alguma coisa. 02h57: Os médicos e enfermeiros Hospital Ivan Goulart continuam de plantão para atender as emergências. (ouça o podcast abaixo e se informe sobre os serviços de urgência em São Borja).

[Acessibilidade] Clique aqui para ler o texto e ver fotos do podcast.

03h15: Um homem pede um Xis Simples no Caçula Mix e aproveita para acessar a internet Wifi pelo seu celular. 04h18: A cidade parece estar dormindo novamente. Nenhuma farmácia, Posto de Gasolina ou Loja de Conveniência estão abertos. Hora ou outra o silêncio é interrompido por alguém que acelera seu carro, fazendo-o cantar pneu, ou pelo grito de alguém ao longe. 05h52: Alguns trabalhadores se preparam para começar a rotina diária e dar movimento à cidade novamente. Os feirantes se encaminham para a venda de produtos coloniais, legumes e verduras. 6h: São Borja está escura e calma. Os caixas eletrônicos dos bancos voltam a funcionar automaticamente...

A importância da linguagem na formação local

Por Mirela Ferreira
A Região da Fronteira Oeste do Rio Grande Sul  foi formada por um vasto número de etnias, da mesma forma que o restante do Estado. Esta mistura de povos, principalmente o contato proporcionado pela proximidade com a Argentina, deram ao local um caráter hispano-brasileiro.
            Para confirmar esta constatação bastam alguns minutos de prosa (como é chamada a conversa informal nestas cidades) com as pessoas no centro de São Borja para se perceberem sotaques formadores da linguagem local.                      
Nesta imagem, o professor Edson Paniagua está vestido com uma camiseta preta, com um notebook na mesa à sua frente, sentado em uma das cadeiras dos corredores da Unipampa. Aparece e mão da repórter estendida em direção ao entrevistado segurando o gravador. O professor está respondendo às perguntas da repórter sobre a formação da linguagem na região. Crédito da foto: Thalita Chagas.
Professor Edson Paniagua
            Este acontecimento pode ser chamado de sociolinguísitica, como explica o professor Marcelo Rocha, da Unipampa/São Borja, especialista na área, afirma: “os estudiosos do tema afirmam que a língua se modifica com o passar do tempo e o contato com outros públicos”.
            Porém, segundo o professor Edson Paniágua, a influência formadora ocorre de forma gradual: “na Universidade temos um mundo próprio, uma linguagem própria, que os estudantes estão formando. No entanto, como a grande maioria dos alunos é originário do Rio Grande do Sul, as modificações no linguajar serão percebidas nos acadêmicos que provem de outras regiões do país, de uma forma tão sucinta, que no dia a dia universitário não será percebida, sendo notada somente por seus familiares, quando houver o retorno para o local de origem, conta o professor, especialista na área de estudos regionais.
            A nova gama de moradores de São Borja, vindos de outras regiões do Estado e do Brasil, convivem ainda com sotaques de um povo característico da cidade: famílias turcas e palestinas (principalmente) que são facilmente reconhecidas na cidade pelo uso de vestuário étnico.
            Em uma cidade do interior do Estado, conviver com as diversas propostas de línguas e sotaques só poderia mesmo ser possível através da integração entre diferentes culturas e, em São Borja, temos esta oportunidade graças a presença de instituições educacionais e a proximidade com países latino-americanos, em especial, a Argentina. Confira no vídeo a seguir, o relato de pessoas que vieram de diferentes localidades para morar em São Borja.


Ouça aqui a descrição do vídeo: 




Com a adoção do Sisu, no Exame Nacional do Ensino Médio - Enem, a cidade de São Borja, bem como os outros municípios do estado que possuem Universidades Federais, os estudantes de diversos Estados brasileiros povoaram a cidade. Com isso, algumas diferenças de sotaque podem ser percebidas em São Borja. Conversamos com esses estudantes e com os professores Édson Paniagua e Rodrigo Maurer, para saber o que cada um presenciou ao ouvir o sotaque gaúcho, ouça no podcast abaixo: 




Para ler a transcrição do podcast, clique aqui


Nesta foto a repórter Daniele Kunzler, vestida com uma blusa rosa, entrevista a paulistana Janine Motta, que veste uma blusa branca. Elas estão no estúdio de rádio da Unipampa posando para a foto, sentadas em frente à mesa que contém os microfones do estúdio. Crédito da Foto: Thalita Chagas.
Janine Motta é de São Paulo e mora há uma ano em São Borja



Neste registro, a repórter Daniele Kunzler está vestida com uma blusa rosa e segura o gravador com a mão direita, entrevistando João Ricardo Ribeiro que é carioca e estuda em São Borja. Ele veste uma blusa também rosa. A entrevista foi realizada no estúdio de rádio da Unipampa e na foto os dois aparecem sentados diante de uma mesa. Enquanto a entrevista é gravada. Crédito da foto: Thalita Chagas.
João Ricardo fala sobre situação engraçada que viveu ao ouvir o sotaque gaúcho

 Para conferir mais fotos, clique aqui/ 

30 de abr. de 2012

Os árabes e o Jornalismo

Daniele Kunzler

A dificuldade encontrada por jornalistas e estudantes de jornalismo em fazer matérias, principalmente as multimidiáticas, com etnias como a árabe, se apresentou em minha frente ao buscar a resolução desta pauta. A resistência em expor sua imagem foi percebida ao entrar em contato com descendentes moradores de São Borja.

Vários árabes e muçulmanos que aqui residem tentam preservar sua cultura. Por isso é normal ver mulheres com a burca pelo centro da cidade e grande parte do comércio local é feito por eles em lojinhas com produtos pendurados nas paredes expostos para vendas. Veja a foto abaixo que nos mostra esta atividade.



Para entender melhor, os árabes são todos os que nascem no Oriente Médio e os muçulmanos são todos os que praticam a religião Islâmica, independente de terem nascido ou não nesta região.

Daniele Aljamal nasceu no Brasil e é muçulmana praticante, filha de um árabe nascido na Jordânia e de uma muçulmana brasileira. Ela nos explica porque as mulheres preservam tanto a imagem: “é pela religião, para não expor a imagem. As mulheres são mais preservadas do que os homens. E depende da pessoa: tem umas que não deixam nem gravar a voz, já tem outras que são liberais”.

Confira o podcast com outros dois personagens árabes e muçulmanos e o que os são borjenses acham deles.

Que papel damos às mulheres árabes?

Em análise ao lugar da mulher árabe na sociedade brasileira, como podemos enxergá-las
livre dos estigmas ocidentais? 


Aline Sant Ana

De árabes a turcos e, por fim palestinos. A questão da Imigração dos povos árabes no Brasil é sempre um assunto que rende bastante detalhamento. Aqui em São Borja, a presença de imigrantes ou descendentes de imigrantes palestinos, libaneses e sírios, chama atenção, tornando a questão ainda mais interessante de ser tratada. Por residirem, quase que em sua totalidade, na região central da cidade, os árabes (como chamaremos nesta matéria) representam boa parte do comércio e da população urbana sãoborjense.

Não há como não identificar os componentes desta Imigração num cenário tão homogêneo, como o de uma cidade pequena. Mesmo quem anda um pouquinho desatento pelo centro de São Borja percebe a concentração de pessoas organicamente diferentes. Em trajes, aspectos físicos, nomes, línguas e rotinas distintas, os imigrantes árabes vivem uma vida comum para os padrões do lugar. Mas ainda assim, algo os destaca na realidade da fronteira.

Para a profª da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Denise Jardim, o ambiente fronteiriço é exatamente o espaço que os povos oriundos das crises territoriais do Oriente Médio , como os palestinos, procuram. A professora explica, na entrevista concedida à IHU que a busca por boas condições de vida, a reorganização familiar após a imigração e as possibilidades de “ir e vir” são fatores que impulsionam a concentração de árabes, principalmente palestinos, nas regiões de fronteira. Além disso, o fluxo comerciário e a facilidade para a obtenção de documentos que legitimem a Imigração Transnacional, favorecem a estadia destes Imigrantes nas fronteiras.

Esta condição transitória acaba por interferir na perspectiva ocidental da Imigração árabe, em que os movimentos pan-arabistas confundem-se com os segmentos sociais e culturais vividos pelos povos árabes. Por isso, quando migram para os países como o Brasil, cujos costumes culturais são muitos distintos, os árabes enfrentam alguns desvios de reconhecimento– sendo comumente taxados de turcos.

O Infoscópio preocupou-se em pesquisar por que alguns (pré) conceitos estigmatizados sobre estes Imigrantes provocam uma verdade quase absoluta no processo de reconhecimento destes povos . Assim como o texto de Renam Guerra explica a origem do chamamento “turco” para todo e qualquer árabe residente no Brasil, a repórter Aline Sant Ana mostra qual o papel da mulher no processo de Imigração, em contraponto ao conceito ocidental geralmente difundido.

Não é preciso ir muito longe para entender por que o mundo ocidental projeta uma imagem tão subversiva à mulher árabe. “Vestidas da cabeça aos pés”, mesmo em dias bem quentes, meninas e mulheres muçulmanas ainda causam indignação a algumas pessoas que circulam pelo movimentado centro comercial de São Borja. O excesso de pano incomoda aos patriatários acostumados com pernas e bustos expostos no verão brasileiro.

Se fizermos uma observação crítica às vestimentas, nem todas mulheres árabes ficam tão vestidas e nem todas brasileiras tão expostas. É uma questão de contexto. Ao propor uma análise da imagem da Mulher Árabe aqui no Brasil, aproximando a realidade de São Borja, conversamos com Simone Pires que nos conta como essas mulheres se posicionam diante da nossa sociedade.

Estudante de serviço social, concede entrevista à repórter Aline Santana
Simone, que é estudante do curso de Serviço Social da Unipampa, realizou uma pesquisa de relatos-orais sobre como ocorreu a vinda de algumas famílias para São Borja e como se dá o cotidiano dessas pessoas na cidade. Durante a pesquisa a estudante pôde acompanhar alguns momentos importantes, como a realização de um casamento numa das famílias. Simone relata que a questão do matrimônio na comunidade muçulmana é algo sagrado e, portanto, muito respeitado por estas pessoas.

A estudante aponta que muitas vezes o matrimônio pode ser a própria causa da imigração. “O casamento que testemunhei era de uma libanesa que veio para o Brasil por que a família do noivo já estava aqui”, conta. Para Simone a questão da relação de gêneros na cultura árabe, quando relacionada ao papel da mulher diante da sociedade, pode variar tanto quanto na nossa cultura. “O fato de estarem mais vestidas não significa nenhum tipo de submissão. Já conheci mulheres árabes muito liberais, assim como já conheci brasileiras submissas.”

Um bom exemplo de não-estigmatização foram os protestos das mulheres libanesas durante o as mobilizações da primavera-árabe. Enquanto as árabes, de véu e vestidos longos , lutavam pelos seus direitos nas ruas, o mundo ocidental (tão liberal) assistia o ocorrido pela mídia. O exemplo de protagonismo, neste caso, já responde qual o posicionamento da mulher árabe diante da sociedade.

Em São Borja, no entanto, o papel da mulher árabe fica mais evidente nas relações de trabalho familiar. Nas famílias cuja renda provém especificamente do comércio, as mulheres assumem uma postura à frente dos negócios.

Uma análise feita pela pesquisadora Samira Osman, publicada em artigo científico mostra que o papel da mulher árabe tratado no assunto Imigração condiz, principalmente, com a transformação de Imigração provisória, para a Imigração definitiva. No artigo, Samira defende que “ao contrário do que possa parecer à primeira vista, essas mulheres imigrantes deixaram a posição secundária de acompanhantes para exercer um papel fundamental no processo imigratório em toda sua complexidade”. A autora evidencia como o papel da mulher pode ser contextualizado a partir do processo de Imigração e, tão logo, justificado pelo processo de adaptação econômico e cultural destes povos nos países de destino.

Para entender como funciona essa diferença entre os processos de Imigração, procuramos o antropólogo Daniel Etchverry (UFRGS) , e questionamos quais as perspectivas contemporâneas para o processo imigratório nas cidades de fronteira. Confira a entrevista na íntegra:


23 de abr. de 2012

E o vinho brasileiro como vai?

Sofia Silva e Tamara Finardi


Parreiras da Quinta do Sino produtora do vinho Malgarim

Quando se pensa em vinhos no Brasil podemos ligar aos descendentes italianos e ao sul do país, há sim, uma coerência, porém, o vinho já era degustado em terras brasileiras bem antes dos italianos chegarem por aqui. A necessidade de consumo do vinho em rituais católicos foi um fator estimulante para os jesuítas produzirem na região dos Sete Povos das Missões

Os italianos vieram depois e alargaram a produção, porém, ouve-se falar sobre os vinhos brasileiros? Brasileiro consome vinho feito aqui? No início do primeiro semestre de 2012 o Governo publicou a averiguação da “necessidade da aplicação de medidas de salvaguarda sobre as importações brasileiras de vinho".

Essa medida tem como objetivo proteger o produto nacional a partir do aumento de imposto ao vinho importado dos atuais 27% para 55%. Após uma semana o Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho) publicou seu reforço ao governo sobre o desejo de Salvaguarda e houve quem se posicionasse contrário.

Cirro Lilla, Presidente das Importadoras Mistrai e Vinci, comentou no site oficial da empresa que “algumas das medidas adotadas recentemente, como o malfadado selo fiscal, atingem fortemente os pequenos produtores nacionais. Vale repetir que estes deveriam ter um papel importante no panorama vinícola nacional, uma vez que não existe país com alguma relevância no mundo do vinho onde o mercado seja dominado por apenas alguns grandes produtores.”

Para entender um pouco mais de como a situação do vinho brasileiro ficaria aqui na região fronteiriça, assista o vídeo em que as repórteres Sofia Silva e Tamara Finardi visitaram a vinícola que produz o vinho Malgarim, em São Borja, e conversaram com a sócia de uma casa de vinhos na cidade de Santo Tomé: