Editoria Comunidade Editoria Sustentabilidade Editoria Intervenções Urbanas Editoria Cibercidade Editoria Cidade 24h Início Facebook Twitter Youtube Sound Clound Flickr Google+ Image Map
Mostrando postagens com marcador Crack. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crack. Mostrar todas as postagens

11 de jul. de 2011

Grades da Liberdade

Sábado. Era uma manhã fria. O corredor escuro do hospital nos passava uma sensação de ansiedade. Após duas horas de espera, a ansiedade tornou-se curiosidade. Enquanto os entrevistados não acordavam, as fichas de internação serviam como guias para nos mostrar as histórias de vida que iríamos conhecer na ala psiquiátrica.

Ao percorrer o corredor do hospital nos deparamos com uma grade trancada por cadeados e coberta por uma tela, era o que nos separava dos depoimentos, envolvendo dependentes químicos. Ao ultrapassar aquela grade tomamos conhecimento de histórias distintas, mas que em certos pontos se entrelaçavam.
J.A.B. observando a calma rotina naquela ala do hospital
(Crédito: Karolyn Petrucci)

Observamos ali que as pessoas sentiam-se aprisionadas, mas esta prisão tinha um sentido diferente. Tudo para elas indicava uma luz no fim do túnel, era mais uma chance de uma nova caminhada, rumo á uma vida saudável, e um futuro promissor. Era nisso que elas se apegavam a cada dia de tratamento, além de contar com o apoio da família, e a vontade de viver longe do vício, que para elas é maldito. Onde o envolvimento só leva á um destino, a cadeia ou o cemitério.
Motivos diferentes justificavam o envolvimento com a droga, porém a decisão de procurar ajuda tinha explicações semelhantes. Percebemos isso ao conversar com J.A. B, 33 anos, que nos falou assim:
“Eu entrei no mundo das drogas porque isso já estava na genética da família. Eu achava que eu podia usar e ia ter o controle, que eu nunca ia me viciar.” Ao pedir para ele falar como enxerga sua internação, a resposta foi firme.
“Eu quero viver meu tratamento só por hoje e mais nada”.

Em um lugar onde poderíamos encontrar apenas rostos tristonhos e pessoas desanimadas pensando quão insolúveis eram seus problemas, conhecemos um rapaz que apesar de tudo ele consegue sorrir e acordar bem humorado, acreditando na sua recuperação, esta pessoa é J.N.E,20 anos.

Conheceu a droga aos 15 anos, iniciou pelo cigarro, passou para a maconha e por último o crack, chegando ao ponto de mendigar para sustentar o vicio. A partir daí o bom relacionamento com a família onde era o queridinho da vovó se transformou em total desconfiança. Isso por causa do envolvimento com a droga.

Hoje após alguns meses de tratamento ele está convicto de seu objetivo. Se livrar do vicio não é o único motivo que lhe fez procurar ajuda.
“Quero pegar de novo a confiança que os outros tinham em mim. Eu tenho que mostrar que eu to me recuperando, que eu vou me recuperar, e que eu vou vencer.”

Após ouvir os depoimentos, percebemos que para todos foi difícil admitir que precisavam de ajuda, mas agora, o mesmo desejo une uns aos outros ali dentro, ocorrendo assim um monitoramento entre os mesmos.

As grades que de inicio apavoravam, agora é apenas uma divisão entre os tropeços que estão deixando para trás e a nova vida que desejam construir. Através delas eles enxergam o que ainda pode ser recuperado, e o que a partir dali vai ser construído. 

Parece um presídio, sim, os corredores assustam, as grades sufocam, mas este é o sentimento de quem se depara com aquela situação, mas não vivencia, este foi o nosso sentimento. Para eles o sentimento é outro, é de esperança, as grades são outras, são as grades da liberdade.


Texto  por Franciéle   Rodrigues
Foto por Karolyn Petrucci
Aúdio por Franciéle Rodrigues