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11 de jul. de 2011

Ohara faz história

Aguardávamos na parada diagonal ao prédio da UERGS, sexta-feira, 10 de junho, rumo ao Bairro do Passo. O ônibus da linha Arneldo Matter chegou aproximadamente às 14 horas. Ohara Vargas Almeida tem 39 anos, está no terceiro semestre do curso de Serviço Social e ao mesmo tempo encaminhado-se para o término do técnico em hospedagem no Instituto Federal Farroupilha. Começou ambos no início de 2010, quando passou nos dois processos seletivos, ainda que sua expectativa fosse conseguir apenas um. Conta que neste semestre por muitos dias seguiu a rotina de sair do campus da Unipampa no fim de tarde rumo ao Instituto para as aulas que iniciam às 19 horas.  Em julho deste ano começa o estágio para concluir o curso técnico. Serão dezesseis dias no Hospital Ivan Goulart, onde terá de passar pelas áreas de higienização, nutrição e recepção. “A área de hotelaria não chama muito minha atenção. Escolhi fazer o estágio no hospital porque vai servir também pro meu interesse quando eu for atuar com o serviço social” – explica.

Alberto Lucero exibe fotografia onde aparece
ainda menino em cima de uma embarcação.
(Crédito: Arquivo pessoal)
O destino é a residência de Alberto Lucero, no número 2038 da Avenida Júlio Tróis. Ohara desenvolve desde o ano passado um trabalho de resgate histórico com o personagem. Entre entrevistas, coleta de documentos, fotos, gravações de vídeo, ela conheceu a história de no mínimo mais sete pessoas. Quem coordena os trabalhos é a professora, mestre em hospitalidade, Priscyla Hammerl. Com 25 anos, vinda de São Paulo, completa um ano de atividades no Instituto. É dela a proposta do projeto História Oral: percepções de hospitalidade no município de São Borja. Elaborado o plano de ação, surgiu a pergunta: como resgatar a história de São Borja? Com a falta de arquivo documental, incumbiu a seus pupilos a busca de informações por meio da estória das pessoas que vivem aqui. “Os alunos perceberam que São Borja tem muito mais história do que ‘a terra dos presidentes’. Eles viram que a história das pessoas que moram aqui também é importante. As estórias de vida... é o cotidiano que forma, na verdade, a história da cidade.”, conta Priscyla, no discurso de sucesso na empreitada. Com o conceito de hospitalidade como relação entre anfitrião e hóspede, “seja na rua, em casa, em ambiente público ou comercial”, foram em busca destes jogos de relações sociais.

É a quarta vez que Ohara vai à casa do “Seu Alberto”, intimidade conquistada depois de muita conversa e aplicação de formulários de perguntas. “Essa moça queria saber até o que a gente come aqui em casa”, fala Alberto, de cabelos bem brancos, 64 anos, com ar de graça. Morador dos arredores do porto desde que nasceu sabe como ninguém, reviver os tempos áureos de movimento intenso proporcionado pela travessia das balsas. Explica que changueiros eram os encarregados de esvaziar as balsas, levando as mercadorias de um lado a outro, geralmente usando um carrinho de mão, função desempenhada por  ele durante anos. Sempre envolvido pelo movimento portuário, chamado de formigueiro, também vendeu pastel e arroz doce aos transeuntes. Foi para o quartel e após o serviço obrigatório ficou por um ano trabalhando no transporte de areia pelo rio Uruguai, vinda de Itaqui. Até aí, como ele mesmo define, sua vida foi fluvial. Depois disso seguiu para outros trabalhos e só voltou a trabalhar lá pouco antes da despedida das balsas, em 1997.

Embarcação Bebeca
(Crédito: Foto de Arquivo do I Memória em Foco)

Esta visita era especial. Ohara trazia para Alberto o convite do I Memória em Foco: exposição de fotos e relatos. Lá foram expostas as fotos e estórias das pessoas que contribuíram com o projeto. O evento seguiu do dia 15 ao 17 de junho, aberto para toda comunidade. Coincidência ou não, a foto que ilustra o convite foi cedida pelo Seu Alberto. Em outro encarte, com formato de cartão postal, há outra foto do arquivo de memórias. A foto mostra dois adultos posando para a foto em cima de uma balsa. No verso, a legenda explica que ele é um dos homens em questão na embarcação Bebel. Depois de um olhar demorado, levanta os olhos para nós e esclarece: “O barco na verdade se chama Bebeca. Aqui na foto não dá pra ver bem, mas é Bebeca, não Bebel”. Convicto do nome da embarcação, Ohara aproveita a situação e reitera o convite para a exposição. “Lá o senhor terá a oportunidade de arrumar o erro”. Seu Alberto concorda e elucida: “Eu posso contar pras pessoas como eram as coisas, posso contar com detalhes, porque assim elas vão conseguir imaginar aquilo que eu vou falar. Vai ajudar a entender melhor a foto”. 

Texto e vídeo por André Schmidt

Despedidas e reencontros

Todos os dias é um vai e vem na estação rodoviária. A vida se renova a cada instante, enxergo lágrimas, mas também sorrisos. O sorriso se retrata no rosto daqueles que vem para ficar, e naqueles que esperam ansiosos pela chegada. As lágrimas podem ser percebidas mesmo que escondidinhas no rosto das pessoas que temem a partida dos seres amados, ou também pela emoção de reencontrar familiares que a tempo não viam.

(Créditos: Franciéle Rodrigues)
A mesma estrada, o mesmo caminho de ida e volta, mas pensamentos e sentimentos tão distintos. Às vezes a pessoa vai e quer voltar, seja por adaptação ou saudade da família e nesse mesmo caminho tem gente que vem e quer ficar.

Assim é a vida em uma estação rodoviária, são despedidas e reencontros a todo o momento, mas não é só isso que ali ocorre, entre tantas chegadas e saídas, algumas noticias chegam ali, seja ela boa ou ruim, noticias que movimentam ainda mais a vida de cada pessoa que em meio a tantas tecnologias ainda esperam as informações pelo ônibus que está a chegar.

A cada ronco do motor, a cada vez que o moço do microfone indica os destinos, um único pensamento vem à cabeça da maioria das pessoas, “que Deus me proteja e proteja o motorista, pois através dele chegarei ao meu destino”. O motorista talvez não saiba, mas quem sabe ele já foi responsável por mais do que um simples reencontro, talvez uma história de amor.

E assim a vida na estação vai se renovando, cheia de surpresas. Todos os dias é um chegar e partir, na chegada “que saudade de você” ou “que bom que você veio”, na partida é um “vá com Deus”. A estação é composta de movimentos, movimentos que compõe a vida, VIDA que é repleta de despedidas e reencontros.



Texto e foto por Franciéle Rodrigues
Aúdio por Karolyn Petrucci

Grades da Liberdade

Sábado. Era uma manhã fria. O corredor escuro do hospital nos passava uma sensação de ansiedade. Após duas horas de espera, a ansiedade tornou-se curiosidade. Enquanto os entrevistados não acordavam, as fichas de internação serviam como guias para nos mostrar as histórias de vida que iríamos conhecer na ala psiquiátrica.

Ao percorrer o corredor do hospital nos deparamos com uma grade trancada por cadeados e coberta por uma tela, era o que nos separava dos depoimentos, envolvendo dependentes químicos. Ao ultrapassar aquela grade tomamos conhecimento de histórias distintas, mas que em certos pontos se entrelaçavam.
J.A.B. observando a calma rotina naquela ala do hospital
(Crédito: Karolyn Petrucci)

Observamos ali que as pessoas sentiam-se aprisionadas, mas esta prisão tinha um sentido diferente. Tudo para elas indicava uma luz no fim do túnel, era mais uma chance de uma nova caminhada, rumo á uma vida saudável, e um futuro promissor. Era nisso que elas se apegavam a cada dia de tratamento, além de contar com o apoio da família, e a vontade de viver longe do vício, que para elas é maldito. Onde o envolvimento só leva á um destino, a cadeia ou o cemitério.
Motivos diferentes justificavam o envolvimento com a droga, porém a decisão de procurar ajuda tinha explicações semelhantes. Percebemos isso ao conversar com J.A. B, 33 anos, que nos falou assim:
“Eu entrei no mundo das drogas porque isso já estava na genética da família. Eu achava que eu podia usar e ia ter o controle, que eu nunca ia me viciar.” Ao pedir para ele falar como enxerga sua internação, a resposta foi firme.
“Eu quero viver meu tratamento só por hoje e mais nada”.

Em um lugar onde poderíamos encontrar apenas rostos tristonhos e pessoas desanimadas pensando quão insolúveis eram seus problemas, conhecemos um rapaz que apesar de tudo ele consegue sorrir e acordar bem humorado, acreditando na sua recuperação, esta pessoa é J.N.E,20 anos.

Conheceu a droga aos 15 anos, iniciou pelo cigarro, passou para a maconha e por último o crack, chegando ao ponto de mendigar para sustentar o vicio. A partir daí o bom relacionamento com a família onde era o queridinho da vovó se transformou em total desconfiança. Isso por causa do envolvimento com a droga.

Hoje após alguns meses de tratamento ele está convicto de seu objetivo. Se livrar do vicio não é o único motivo que lhe fez procurar ajuda.
“Quero pegar de novo a confiança que os outros tinham em mim. Eu tenho que mostrar que eu to me recuperando, que eu vou me recuperar, e que eu vou vencer.”

Após ouvir os depoimentos, percebemos que para todos foi difícil admitir que precisavam de ajuda, mas agora, o mesmo desejo une uns aos outros ali dentro, ocorrendo assim um monitoramento entre os mesmos.

As grades que de inicio apavoravam, agora é apenas uma divisão entre os tropeços que estão deixando para trás e a nova vida que desejam construir. Através delas eles enxergam o que ainda pode ser recuperado, e o que a partir dali vai ser construído. 

Parece um presídio, sim, os corredores assustam, as grades sufocam, mas este é o sentimento de quem se depara com aquela situação, mas não vivencia, este foi o nosso sentimento. Para eles o sentimento é outro, é de esperança, as grades são outras, são as grades da liberdade.


Texto  por Franciéle   Rodrigues
Foto por Karolyn Petrucci
Aúdio por Franciéle Rodrigues

27 de jun. de 2011

Um Texto Novo

Preciso escrever um texto novo. Mas, nada me parece novo.
Está tudo velho. Essa é a reclamação de todos. Da criança, que acabou de ver o anúncio de um novo brinquedo. Do Seu Joaquim da padaria, que está cansado de só fazer pão. Da senhora na parada de ônibus, que, quando está frio, sempre começa suas conversas com a frase: “Frio hoje, hein?”.
E quem precisa fazer coisas novas, como é que fica? Ao contrário do Seu Joaquim da padaria, que faz todo dia o mesmo pão, não posso escrever todo dia o mesmo texto.
Um papel em branco desafia. Penetra nos olhos, maliciosamente, desdenhando das nossas capacidades.
Já sei. Vou pra rua. Ela inspirou poetas por gerações. Não vai me deixar na mão.
Lá, encontro o mesmo banco da mesma praça. A mesma garota passeando com o mesmo cachorro. A mesma mãe, trazendo o mesmo filho da mesma escola. O mesmo casal de namorados, dividindo o mesmo chocolate que comprou na mesma confeitaria.
Foi ali, observando o tal casal de namorados, que me veio o estalo.
É o amor. Claro, o amor! É ele que deixa tudo novo. É o responsável por mascarar as coisas velhas, fazendo com que pareçam novas. É o segredo dos poetas.
É graças a ele que os dias não se tornam apenas uma série de acontecimentos que se repetem. Ele instiga descobertas.
Tá aí. Acabei de fazer uma descoberta. Mas, se outros já devem ter descoberto, não é descoberta.
Ou é?
Pra mim, é.
Cheguei em casa. O papel ainda está em branco.
Preciso escrever um texto novo. Bem, precisava.
Parece que esse é mais um relato sobre nada. É que o nada me parece novo.
Texto por Dhouglas Castro

13 de jun. de 2011

Dia dos Namorados

Você me faz feliz.

Me dá alento. Aconchego. Tranquilidade.

Você foi responsável por muitos dos meus momentos mais felizes e, em algumas das horas mais difíceis, você foi meu consolo.

Ao mesmo tempo, é estranho e extasiante saber que você se tornou, pra mim, tão importante quanto minha família ou meus amigos. Depois que você entrou no meu mundo, mudou meu jeito de ver, pensar e sentir.

Você me consome. E isso é recíproco.

Eu já disse que te odiava. Que não queria mais te ver na minha frente e que alguns dos meus problemas eram culpa sua. Mas foram apenas lapsos, meramente momentâneos.

Porque a verdade é que, sem você, não vivo. Não sou nada. Não sou ninguém.
Me desculpe se demorei para admitir isso. Às vezes até me pego pensando que, talvez, você é tudo o que eu preciso.
Afinal, te tenho presente nos meus sonhos desde sempre. Poder te ter em minhas mãos de verdade foi e é uma das melhores coisas que me aconteceu.
Quanto mais eu te tenho, mais te quero ter.

E aproveitar essa intensidade fugaz da nossa relação é tudo o que eu quero agora.

Pois é. Parece que estou apaixonado.

Eu te amo, dinheiro.




Texto por Dhouglas Castro
Foto por Karolyn Petrucci
Infográfico por Franciéle Rodrigues

12 de jun. de 2011

Clarisse

Naquele dia, Clarisse acordou sem saber que dia era aquele. Na verdade, ela não acordou – foi acordada. Os barulhos loucos do mundo do lado de fora, combinados com uma ideia inconsciente de que haviam muitas coisas a serem feitas foram os motivos que a fizeram despertar.


A correria dos últimos meses era tanta que Clarisse tinha a impressão de que seu cérebro havia ativado um piloto automático e, sempre que acordava, ela demorava alguns minutos para entender onde estava, o que aconteceu e o que iria fazer nas próximas horas.


“Seis de junho”, dizia o calendário. Devia ser seis de junho, portanto. O relógio do seu quarto dizia: “7h41min”. “Atrasada!”, pensou. Mais uma vez, não iria dar tempo de tomar banho nem café.


Clarisse lembrava com saudosismo de sua infância e adolescência – momentos em que era realmente livre, mas achava que alguns trabalhos da escola eram chatos. Quem dera se sua definição atual de “trabalho chato” pudesse ser a mesma.


Ela estava cansada. Cansada de viver uma subvida, por dedicar dez horas de cada um de seus dias (exceto domingo) em troca de notas de papel. Mais do que notas de papel, o que ela desejava em seu âmago era mudar o mundo. O seu mundo, nem que fosse (os tempos atuais a deixaram menos exigente).


Todos esses pensamentos passavam pela cabeça de Clarisse enquanto o piloto automático fazia as mesmas coisas de sempre – levantar, vestir-se, ir ao banheiro, lavar o rosto, escovar os dentes, prender o cabelo, sair do banheiro, pegar a bolsa, olhar-se no espelho, abrir a porta, sair de casa, fechar a porta, ir ao trabalho.


Chegando ao trabalho, os relógios do lugar diziam que eram “8h22min”. Vinte e dois minutos atrasada. Como já era de se esperar, Clarisse teve que aguentar a ira daquele que era um dos responsáveis pelo fornecimento das notas de papel, conhecido como “chefe”. Antes de ser demitida, passou por uma sessão de reclamações acerca de seus atrasos anteriores. Ela nem revidou durante a sessão de reclamações, pois estava cansada. Também não ficou abalada com a demissão. Apenas pensou: “Se ia me demitir, porque o falatório”?


Diferentemente do que muitos poderiam sentir num momento como aquele, Clarisse saiu do trabalho com uma incrível sensação de leveza. Era fácil descobrir o porquê de ela estar com essa sensação: seu cérebro havia saído do piloto automático. Será essa a sensação que se chama liberdade? É uma pena que não possamos trocá-la pelas notas de papel.


Escute abaixo um poema sobre a correria do mundo moderno.




Uma das principais causas de desistências ou demissões é o estresse, conheça os sintomas no infográfico:



Texto  por Dhouglas Castro
Infográfico por Karolyn Petrucci
Foto por Karolyn Petrucci 

6 de jun. de 2011

Ontem foi domingo

No decorrer da semana é aquele corre-corre, o canto dos pássaros se abafa por detrás das conversas, risadas e cumprimentos. A brisa do vento cede lugar ao calor da aglutinação de pessoas. O ronco de um motor e o apito de uma buzina realçam a intensidade da vida durante os dias de alguma semana qualquer de São Borja.
Todo aquele barulho que parece não cessar nunca desaparece de repente. Chegou o domingo. Momento de descanso para muitos. O que antes não se ouvia, agora é barulho constante no decorrer daquele dia. Tudo o que se vê nas manhãs e num pedaço da tarde do domingo, nesta cidade missioneira, são coisas que passam despercebidas no dia-a-dia, mesmo estando perto de nós, e às vezes fazendo parte da nossa vida.
(Crédito: Karolyn Petrucci) 
O movimento dos carros dá espaço para a caminhada de animais abandonados, ou daqueles que saem para dar um passeio. O vento que não se sentia, agora sopra com vontade trazendo uma leve brisa. Livre, solta, silenciosamente ecoantes. O barulhinho frequente de folhas de papel indicando compromissos cede lugar para o remexido das árvores que despertam o canto dos pássaros. O som da buzina que vinha dos carros, agora sai de um lugar diferente - é o tio do algodão doce passando na rua.
A praça XV, que no dia de semana é um dos lugares mais movimentados da cidade graças aos estabelecimentos comerciais e a chegada e saída de táxis, no domingo fica aparentemente vazia. O que se nota por ali é a dupla de macaquinhos que fazem morada nas árvores do local. A cantada de pneus dos carros que correm para encontrar o sinal aberto dá lugar ao rangido dos balanços da pracinha infantil.
(Crédito: Karolyn Petrucci) 
Assim, a cidade transmite a sensação de parecer ter duas vidas. Nesse dia, onde tudo está mais leve, podemos perceber pequenas coisas que no dia-a-dia encontram-se adormecidas pelos alheios. Para onde foi todo aquele barulho, que no domingo se desfaz?
Respostas talvez nunca se encontrem, mas se podemos nos desfazer de alguns barulhos, podemos contribuir para uma corrida diária menos massiva. E se a cidade para muitos no domingo é parada, para outros só é sinal de reflexão, já que é difícil parar para pensar ou observar diante de tantas atividades a serem cumpridas.
A diferença entre os dias de uma mesma cidade servem para realçar a identidade dela. Num dia parada, no outro movimentada. É assim que ela se define, é assim que a vida por aqui acontece.
Texto por Franciéle Rodrigues
Fotos por Karolyn Petrucci

23 de mai. de 2011

Vaca, um amor de gente

Dona Neli e Seu Alzirino, uma história de esperança e companheirismo
(Crédito: Karolyn Petrucci)
Uma simples mulher de pele clara, baixa estatura e cabelos vermelhos que recebe o apelido carinhoso de seu companheiro como "cabecinha de pica-pau". Além de ter olhos escuros que remetem o esforço de uma vida inteira, ela também tem músculos fortes que retratam o trabalho braçal do dia-a-dia. Uma rotina que começa a partir das seis e meia da manhã, e que a envolve até o fim do dia com um intervalo apenas para os afazeres domésticos. 

Assim é a vida de dona Neli de Matos Soares, 61, residente à vinte e dois  anos na Rua Castro Alves, onde cuida carinhosamente de suas três vaquinhas que levam o nome de “Mocha”, “Preta” e “Aspinha” e que ela considera um amor de gente. “É por isso que eu não gosto nem de judiar dos bichos, não dou um tapa. Porque se não fossem elas, o que seria de mim?”

 

Dona Neli trabalha com a venda de leite há 12 anos, de onde tira parte de seu sustento, pois ela conta com a ajuda da aposentadoria de seu companheiro, o senhor Alzirino Soares de Almeida, 72 anos. Segundo seu Alzirino, dona Neli já teve 18 vaquinhas, mas com o passar do tempo elas diminuíram. Hoje, ela lida apenas com as três, que rendem em média 11 litros de leite por dia, quando os terneiros ainda estão novinhos. 

A alimentação destes animais é à base de ração, pois dona Neli afirma que somente o pasto não faz a vaquinha render. Durante a noite, “Mocha”, “Preta”, e “Aspinha” ficam resguardadas em um galpão azulzinho com um tom puxando para o verde, onde cada uma tem seu lugarzinho certo. Ao amanhecer o dia, elas cumprem com seus compromissos e depois são levadas para o campo, onde passam todo dia e só retornam para casa no fim da tarde para se alimentar e voltar aos seus aposentos.





A Família
Uma família grande, composta por 8 filhos e aproximadamente vinte netos. Esta é a composição familiar de dona Neli. Segundo ela, seus filhos foram criados à base do leite que ela mesma tirava, um ofício que aprendera desde pequena. Durante a conversa, dona Neli me conta que ela sempre gostou de tirar leite e só diminuiu o número de vacas porque começaram a roubar dela, “aqui, se deixar não amanhece”.


Um fato curioso que ela revelou durante a prosa é que as suas vaquinhas têm um compromisso apenas com ela, acostumaram-se com a dona. “Se um estranho vai tirar leite elas não deixam”.

O casal que é natural da cidade de Caibaté, firmou-se em São Borja há 30 anos, e há 22 transformou o seu terreno em um pequeno sítio, onde além de criar as três vaquinhas ainda tem espaço para a baia. Alguns galos e galinhas se dividem em comportados e rebeldes, onde os rebeldes dormem empoleirados em uma árvore e os mimados, assim chamados por seu Alzirino, dormem no aconchego das vaquinhas. Além disso, ainda tem os quatro cãezinhos que esperam atentos o chamado de Alzirino para recolher as vacas do campo.



Uma conversa informal que de início seria apenas com dona Neli, tomou outro rumo quando seu Alzirino fazia questão de responder algumas das perguntas feitas por mim, e a partir disso a nossa conversa passou a ser mais rica do que já estava. Um fato que me chamou atenção foi a questão que ele fazia de mostrar a vegetação que ele plantara naquele terreno ou pequeno sítio e a maneira como se referiu ao verde. “Eu gosto do verde porque o verde é esperança e o amarelo é desespero”.

E assim eu encerro aqui esta história, porque no dia-a-dia, a história deste casal continua regada com muita esperança e multiplicada pelo carinho que eles têm pelos seus animais, especificamente dona Neli pelas suas vaquinhas, pois segundo ela, “vaca é um amor de gente”.

Assista o vídeo abaixo, onde Dona Neli fala sobre sua vida e seu trabalho:





Texto por Franciéle Rodrigues
Imagens por Karolyn Petrucci e Dhouglas Castro
Fotos Karolyn Petrucci 

O que você quer ser quando crescer?



Era dia 30 de abril, pela tarde. Estávamos no Parque de Exposições da Expo Outono, onde acontecia uma apresentação classificatória do Freio de Ouro Infantil. Carlos Augusto Falcão Filho, de 9 anos, era a única criança apresentando-se na categoria, o que o classifica automaticamente para a próxima etapa do Freio Infantil.


Carlos Augusto Falcão Filho e seu cavalo "Cascalho Chimarão"
(Crédito: Nathalia lopes)
Augusto, como é chamado pela mãe, que assistia a apresentação de perto, anda a cavalo desde os 4 anos e compete em torneios desde os 7. No ano passado, ficou conhecido por ser o competidor mais jovem e foi o vencedor do torneio que pretende ganhar novamente.
Só que, pra ele, não há competição. É como se tudo fosse uma brincadeira. Perguntamos: “o que você vai sentir se ganhar o torneio?”. Ele responde: “se eu ganhar, ganhei. Se não, não”.
Sempre achei que as respostas óbvias dadas pelas crianças são, na verdade, muito profundas. Esse é o verdadeiro espírito da competição esportiva: Se você ganhar, ganhou. Se não, não. Toda essa especulação gerada pelos campeonatos de qualquer esporte é desnecessária, já que o verdadeiro esportista é o que compete porque gosta. A vitória é algo secundário e o título é simbólico. Ainda mais quando o acaso é um dos fatores que entra no jogo.
Com pilchas típicas, montado em seu cavalo chamado “Cascalho Chimarrão”, Augusto fez manobras (eu sei que não se chamam “manobras”, mas você entendeu) que este que vos escreve jamais faria. O guri é bom. Tem futuro. Assista o vídeo e acompanhe um trecho da prova de Augusto.



     Não pudemos deixar de fazê-lo aquela velha pergunta que permeia a infância de todos: “o que você quer ser quando crescer?”. A resposta foi óbvia (portanto, profunda): “quero participar do Freio de Ouro Adulto. É que esse é o Freio de Ouro de verdade”.
Texto por Dhouglas Castro
 Imagens por Nathalia Lopes e Dhouglas Castro
Foto por Nathalia Lopes 

10 de mai. de 2011

A enchente passa

“Eu já tô cansada. Ainda bem que em seguida eu tô indo embora daqui. Imprensa? Isso não serve pra nada. Mostraram a nossa situação umas três vezes, já. Meu marido até apareceu no jornal, fizeram foto e tudo. A gente só se expôs e, no fim, tivemos que nos virar. Mas eu tô indo embora daqui em seguida, é isso o que vocês precisam saber.”


Isso foi o que nos disse Dona Marlene*, 46 anos. O estresse é notável em sua fala porque ela e sua família moram, atualmente, em uma casa que está em área de risco – nos arredores do Rio Uruguai, numa época do ano em que a enchente não acontece se houver sorte.


O que diferencia sua casa das outras é que, para não abandonar o lugar e trocar seu lar por uma casa popular oferecida pela Prefeitura (pequena e mal localizada, segundo ela), sua família construiu um andar de cima, de modo improvisado. Quando o rio sobe, o andar de baixo fica submerso na água e a família leva todos os pertences ao segundo piso.


Vista por fora, a casa é toda de madeira, com uma pintura azul desbotada pela umidade. Foi estranho imaginar a casa num dia de rio cheio. Porque, se estivéssemos exatamente naquele lugar onde estávamos, só que num dia de enchente, estaríamos cobertos pela água, tendo ainda que nadar um pouco para alcançar a superfície.


Como foi dito por Dona Marlene no início do texto, ela e sua família deixarão a casa em breve. Pra onde vão, quando vão, como vão, ela não quis dizer. Não foi por falta de insistência - fomos até sua casa quatro vezes. Gostaríamos de lhe passar essas informações, mas poderíamos ser presos por invasão de privacidade.


Podemos, no entanto, traçar um paralelo entre seu depoimento atual e o de seu marido, entrevistado por nós no ano passado também em período de enchente, por volta de junho. Nessa época, tivemos a sorte de encontrá-lo em casa para uma entrevista. Voltemos ao ano passado:


Seu José*, 48 anos, é o pai da família. Enquanto assiste a um jogo da Copa do Mundo pela TV (sim, nós abusamos da sua boa vontade), nos conta com orgulho como foi a construção da casa que “fez com as próprias mãos para não abandonar um lugar que ama”. Numa visão geral, José parece mais otimista que a esposa e revela parte da sua história:


A família vive no lugar há mais de 30 anos. Os vizinhos são velhos amigos. Foi ali que suas filhas cresceram e os netos nasceram. Ainda segundo ele, a região é tranquila, “mais tranquila do que a região da cidade onde estão as casas populares”.


Hoje, porém, eles estão indo embora.


A natureza desfaz lares e nem pede licença. Parece que sempre foi assim, mas a inteligência humana evoluiu tanto que, diante das incríveis inovações da engenharia atual, é paradoxal saber que situações como essa acontecem. Ainda mais quando há mortes envolvidas. Uns diriam que se trata de questões políticas... Mas na natureza não há política. Em alguns casos, não há nem piedade.


Ainda bem que o caso de Seu José e Dona Marlene não é tão dramático. Todos estão vivos. Um pouco estressados, mas isso passa. A enchente passa. E a imprensa, que não serve pra nada, também.


*Os nomes usados no texto são fictícios para preservar a privacidade da entrevistada, que recusou-se a autorizar a publicação de seu nome e de seus familiares.

Por Dhouglas Castro, Dyuli Soares e Karol Petrucci

Lida, vida, aguerrida.

Tudo começou há nove anos. Dona Osvaldina trabalhava na Usina de Reciclagem de São Borja, lá a senhora de estatura mediana, pele morena e corpo esguio cuidava dos animais que moravam nas redondezas e eram maltratados.
Dona Osvaldina, um exemplo de amor aos animais
(Crédito: 
Franciéle Rodrigues). 
A partir daí o amor de Dona Osvaldina pelos animais só aumentou. Após ser dispensada do serviço decidiu levar alguns cães para casa. Pessoa humilde com coração grandioso; preferiu dividir o pouco que tem para cuidar daqueles animais que ninguém mais queria. Na pequena moradia ela vive sozinha desde que seu filho foi embora para Santa Catarina, no pátio 17 cães e oito gatos vivem em perfeita harmonia.
Dentre tantos bichinhos existem algumas histórias curiosas, como a do pitbull Bruce Lee, que é o único cão que Dona Osvaldina comprou para substituir o outro pitbull que ela tinha e que morreu de tristeza quando o netinho dela foi embora. E a da dócil Guria, cadelinha que foi encontrada em cima de um par de tênis que já de início conquistou o coração da sorridente senhora.
O dinheiro que Dona Osvaldina usa para alimentar e cuidar dos animais vem do serviço de catadora de recicláveis autônoma, porém ela recebe de um vizinho alguns miúdos de carne que ela refoga e serve para os cães e gatos.
Por causa de dificuldades financeiras, alguns vizinhos já sugeriram que ela doasse os animais, mas ela não consegue se desfazer de nenhum de seus pequenos companheiros. A história de Dona Osvaldina é uma lição de vida para muitas pessoas que apenas ignoram esses animaizinhos de rua ou que maltratam qualquer bichinho. Uma história repleta de amor, simplicidade e dedicação, onde o dinheiro não diminui o carinho da sempre sorridente Osvaldina pelos cães e gatos que são motivo de alegria para ela.
       
 Texto por Karolyn Petrucci
Foto por Franciéle Rodrigues 

2 de mai. de 2011

Mãos de anjo embalando sonhos

Sibele Chaves com Lucas, um dos alunos participantes do projeto
(crédito: Karol Petrucci)

Uma mulher de pele clara, cabelos grisalhos, olhar profundo e mãos de anjo. Ao nascer, aquelas mãos tiveram seu caminho traçado, regado de partituras, sonatas e acordes, indicando que o destino lhe proporcionaria uma vida repleta de músicas suaves. Assim é a vida de Sibele Chaves, 50 anos, professora de piano há quarenta anos. Desde 2004 Sibele participa de um projeto voluntário no Centro de Formação Tereza Verzeri, levando para meninos e meninas a arte e beleza de seu dom.

Se antes o piano era considerado um instrumento de classe alta, hoje está lá disponível aos pequenos. Não só para que eles possam ouvir, mas também tocar e aprender a apreciar apesar de todas as dificuldades encontradas naquela pequena sala cheia de cadeiras, com um piano alemão antigo, mas sem idade definida. O piano já não tem mais as boas condições sonoras de seus áureos tempos, mas reúne muita dedicação e sonhos dos pequenos talentos que esperam um futuro promissor.

Devido à péssima situação do piano alemão, os alunos têm as aulas práticas em um teclado. O piano é utilizado apenas para exercícios mecânicos, de repetição para adquirir mobilidade e agilidade. Mesmo com todas as barreiras e dificuldades, a vontade de aprender e a vontade de ensinar continuam lado a lado, crescendo cada vez mais. E foi por isso que Sibele teve uma nova ideia: além de treinar no centro de formação, ela abriu as portas de sua casa para novos acordes e diversos sonhos.

Foi assim, sendo voluntária, que as mãos de anjo descobriram que ainda é possível, mesmo neste mundo individualista, pensar no próximo. Descobriu que o ritmo que aquece, tranquiliza e encanta pode sempre ter espaço no coração de alguém e que novos sonhos e novos talentos podem bater a sua porta a qualquer instante.

Texto por Franciéle Rodrigues, Karol Petrucci e Luísa Aranha

Sonhos lavados

Margem do Cais do Porto (Crédito: Dhouglas Castro)


Era uma tarde chuvosa. O clima do cais do porto lembrava, para algumas famílias, momentos passados ali. A chuva, que ajuda o verde e alegra os pássaros, não é o que preocupa os moradores. A paisagem local mais linda sim: o Rio Uruguai. Esta beleza natural que serve de sustento para muitos também é motivo de medo, principalmente quando as chuvas do estado vizinho, Santa Catarina, enchem o rio e as barragens são abertas. Nessas vezes, o Uruguai mostra sua força. Segue seu percurso e toma de volta o que é seu por direito: suas margens, suas terras, seus arredores.

Há quem julga ser incrível a maneira que os ribeirinhos encontram para fugir da enchente. Alguns comemoram as cheias - acreditam que é o período de limpar suas casas. A mesma água que invade suas moradas também purifica, levando de volta para o leito do rio as energias ruins. Outros dizem que é dolorido construir sonhos que depois são levados pela água. O drama das enchentes não é de hoje. Pela legislação brasileira, todas as zonas ribeirinhas são propriedades da Marinha do Brasil. Mas, famílias se apropriam das terras. Constroem seus lares e vidas ali e, mesmo que a Defesa Civil construa e doe casas para que eles larguem essa vida de vez, a maioria não aceita. Preferem a enchente. Acostumaram-se a viver assim.


A prova disso está no olhar, no sorriso e na forma de agir do senhor Assunção Escobar do Amaral, casado, pai de dois filhos, dono de um estabelecimento comercial e residente do Cais do Porto às margens do Rio Uruguai, que hoje é o protagonista desta história.


Um homem que na profundeza de seu olhar retrata dilemas vivenciados durante as enchentes que já enfrentou. E, apesar delas, decidiu permanecer ali. Ele gosta do que faz. Ele gosta do lugar que escolheu para ser seu. Ele gosta dali. Devido às inundações ocorridas durante o ano, Amaral, como é conhecido nas redondezas, construiu um degrau a mais. Superou os obstáculos. Construiu um segundo piso no estabelecimento comercial, juntamente com a casa própria. Assim, quando há enchentes, abriga na parte de cima sua esposa Ângela Maria e seus filhos Fernanda e Felipe.


Mesmo com todo esforço para fugir das cheias, ele conta que em 2005 a enchente atingiu o segundo piso do estabelecimento. Teve que tirar tudo de dentro e, para isso, contou com a ajuda de outros comerciantes do local. É assim que funciona, todo mundo ajuda todo mundo. A solidariedade fala mais alto. As mãos amigas se encontram e, num grande mutirão, todos se salvam de outra investida Uruguai.


Quando o Uruguai vem invadido seu espaço, Amaral mais uma vez o engana. Se o rio pensa que lhe tornará um heremita, ilhado em sua própria fortaleza, ele se engana. Com um barco, as mesmas águas que invadem servem de estradas para que a família mantenha uma vida normal. Para que os sonhos não se percam. Se precisar, mais um degrau será construído. Assim os sonhos são apenas lavados e a vida continua, coerente com o rumo do Rio Uruguai: sempre em frente.


Texto por Dhouglas Castro, Dyuli Soares, Franciéle Rodrigues e Luísa Aranha